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sábado, 7 de julho de 2012

Da cena aos bastidores 

Sérgio Paulo Muniz Costa* 
 
A política externa do Brasil bem que poderia mostrar mais maturidade e sofisticação do que transparece de sua atuação nos meandros da crise paraguaia. Quem sabe, aprendíamos alguma coisa com Mrs. Clinton no affair Honduras, que na penumbra fez Zelaya desempenhar o papel que interessava aos Estados Unidos, enquanto o Brasil encenava o personagem equivocado sob o brilho dos holofotes. Parece não ser o caso. O governo brasileiro insiste em partidarizar a nossa atuação externa em detrimento do interesse nacional e, com isso, politiza o Mercosul e mina a credibilidade da precária Unasul. Um Paraguai isolado certamente não é uma boa solução para o Brasil, muito menos pelo Brasil. 
O Paraguai não é para o Brasil o que o México é para os Estados Unidos. O Brasil foi apoiador de primeira hora da independência do Paraguai e da sua integridade territorial,  mesmo na tragédia da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870),  “guerra maldita”  que encerrou o confronto mais que secular no Prata. De qualquer  forma, nesta Sudamérica não existe o abismo psicossocial que divide outra América, e a nossa diplomacia faz um jogo complexo na região, cuja história, geopolítica e cultura conformam um ambiente no qual o Brasil busca promover estabilidade. 
Em função dessa meta, no que diz respeito ao Paraguai, o Brasil tem duas grandes preocupações, imediatas. A primeira é impedir que a questão dos brasiguaios extrapole em violência, gerando uma crise bilateral e regional de consequências imprevisíveis. A segunda é esvaziar qualquer risco de confrontação armada no país vizinho, o que poderia aspirar o Brasil  a uma intervenção ou oportunizar outras, estranhas, que trariam ainda mais problemas.
Seria muito bom se ficássemos na impertinência do chanceler brasileiro pressionando o Congresso paraguaio e não prosseguíssemos na tentativa de intervir num país soberano sem motivo e respaldo. Até mesmo as inoportunas sanções ao Paraguai que beneficiam Buenos Aires e Caracas merecem ser contextualizadas no lugar nenhum a que esse eixo vai chegar. Já o atendimento dos interesses vitais do Brasil na região passa pela manutenção das melhores relações com o governo paraguaio, algo que não pode ser alterado ao sabor dos ideólogos do Planalto.
Fatos são criados, porém acontecimentos adquirem sua dinâmica. Tão bruscamente como se deu a substituição do presidente do Paraguai — golpe para uns, ruptura para outros — afastaram-se as ameaças à paz e à segurança no país vizinho. Retórica à parte, o resultado é claro: por ora, os brasiguaios  estão menos ameaçados, o risco de uma crise militar interna foi afastado, e os atores rivais podem ter perdido o momentum.
Por trás do pano, o Brasil tem razões para estar aliviado. Mas não dá para comemorar. Melhor seria se voltasse a jogar como sempre ganhou: nos bastidores, e profissionalmente.

* Sérgio Paulo Muniz Costa, historiador, é membro do CPE (Centro de Pesquisas Estratégicas da UFJF) e do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).
 

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