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quarta-feira, 8 de março de 2017

MAS SERÁ O BASTOS MOREIRA?

   Superados meses sabáticos de descontaminação virtual, retomei o manuseio de aplicativos para logo constatar incipiente polêmica derivada de texto do Bastos Moreira, Cav/70, criticando o recente emprego do Exército em operações de garantia da lei e da ordem. O debate fez-me regredir a idos tempestuosos do final da década 1960.     
     Setembro de 1968, 29, domingo à noite. No Maracanãzinho lotado, o anúncio oficial das vencedoras do III Festival Internacional da Canção (FIC) provoca vaias ensurdecedoras de vinte mil pessoas, inconformadas pela vitória de Sabiá (Chico Buarque - Tom Jobim), relegando Caminhando, ou Para Não Dizer que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, à segunda colocação.   
     No clima do É Proibido Proibir - lema das rebeliões estudantis de maio daquele ano em Paris -, decretação de Atos Institucionais e acirramento da repressão à guerrilha comunista, Caminhando conferiu foros de Cohn-Bendit tropical a Vandré e tornou-se hino de protesto contra o regime militar. O trecho mais contundente da letra - "nos quartéis nos ensinam antigas canções de morrer pela pátria e viver sem razão" - escancarava seus propósitos de negação ao estamento político-militar. A contraofensiva seria imediata.
    Na mesma semana, as primeiras páginas dos principais jornais brasileiros publicaram a íntegra de uma carta-resposta que questionava Vandré e assim terminava - "E, em nossos quartéis, continuaremos ensinando, se preciso, a morrer pela Pátria, porque assim não viveremos sem razão". Datada de 1º de outubro, portanto dois dias depois do FIC, teria sido redigida no longínquo Forte Coimbra, no Mato Grosso ainda sem a divisão atual. Autor? Certo cadete Bastos Moreira.   
    A pronta resposta encerrava nuances duvidosas. Numa época sem internet, do interior profundo do país, em rede nacional, quarenta e oito horas depois revidar os efeitos de evento ocorrido a milhares de quilômetros de distância representava proeza extraordinária. E o que fazia um cadete do Exército no Forte Coimbra, em outubro, para elevar-se às culminâncias de atingir as manchetes da grande imprensa?  
     Aspectos obscuros sem explicação convincente fertilizam suposições fantasiosas, teorias conspiratórias e inverdades no atacado. No episódio, a versão dominante foi a de atribuir a carta à AERP - Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República e antecessora do CComSEx - também receptora da suspeição de ter influenciado a escolha de Sabiá em detrimento de Caminhando.
    Quando li o pronunciamento recente do Bastos Moreira, os fantasmas de 1968 ressurgiram. Apesar de conhecê-lo e o seu estilo peculiar de cavalariano faca na boca, nunca perguntei ao Moreira Louco - assim era conhecido no Esquadrão - a verdade sobre o midiático episódio de Para Não Dizer que Não Falei de Flores. Afinal, quem de fato redigiu a resposta a Geraldo Vandré? Ele ou a AERP através dele? E o Forte Coimbra, como fica?  
   O jovial Moreira formou-se adolescente no auge da Ipanema idílica daqueles anos 60, de mulheres estonteantes e personagens invulgares que dariam repercussão planetária ao bairro. Da varanda do Veloso, do burburinho do Zepelim, da sorveteria do Morais, do Zé da Farmácia, do cachorro Rex, da Leila Diniz, do Tom, do Arduíno, do Cabinho e de outros ícones ipanemenses, deve guardar lembranças singelas.
   Mas, coerente com a própria vocação de guerreiro--alfa ele percorreu caminho inverso ao do seu cultor Damerran Smith, quando trocou o charme urbano da beira de praia pela bucólica Vila Valqueire, vizinha da Vila Militar onde ensina técnicas de mergulho no Círculo Militar. 
     Repto ao Dr Lobo Moneró, seu parceiro diário no RAN: decifre-nos o Bastos Moreira, e suas misteriosas, retumbantes declarações públicas.
    A História agradece.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 2017.
Dom Obá III, repórter por um dia