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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Gravidade política


 
  • Sérgio Paulo Muniz Costa
O Brasil, pode-se dizer, está no limbo, pairando desgovernado em recessão econômica e na crise política. Mas é a sociedade brasileira que está em suspenso, aguardando o desenlace de uma situação que todos pressentem ser insustentável. O cerco das investigações vai se apertando em torno do governo, as recursos públicos vazaram por todos os lados, o condomínio do poder está rachado, ninguém acredita na presidente da república (nem ela) e a população não aceita mais corrupção e inépcia, e muito menos pagar por elas, como sugerem o PT e Dilma.
O clima de protestos e panelaços do início do ano deu lugar a um silêncio de expectativa, no qual todos os olhos se voltam para as instâncias da Justiça e a classe política sente sob os seus pés os abalos no modelo de presidencialismo praticado no País nos últimos anos. No Brasil, quando se pensa em fim de um modelo político ou regime, a primeira imagem que vem à mente é a da ruptura institucional, do golpe de estado, da revolução, das passeatas e das mobilizações. Na verdade, isso tudo é o clímax de um processo, acelerado em sua fase final pelos erros de percepção dos detentores nominais do poder. Há ainda que se contextualizar essas reflexões no amadurecimento institucional do País.
Não existe problema pequeno para o Brasil. Tudo o que diz respeito ao País é grande, complexo e diverso. Historicamente, o Brasil é um país de consensos, por mais precariamente institucionalizados que sejam. Não haveria de ser diferente com sua política e as crises que ciclicamente nos assolam. Existem boas suposições para isso: não há grandes pressões externas, o país é naturalmente federalista, a cultura nacional é marcada pela tolerância e não há escassez crítica de recursos. Enfim, o país tende ao equilíbrio, sem movimentos bruscos.
Isso concede um papel primordial aos insiders na promoção de mudanças, ou até das rupturas, toda vez que o sistema se enrijece ao ponto de não cogitá-las, o que parece estar acontecendo mais uma vez no Brasil. Como o ciclo econômico do café que engendrou os infames arranjos políticos da República Velha, a suposição de ser o País uma imensa fazenda administrada ao bel prazer dos poderosos do momento está tornando inviável esta República. Há, por certo, radicais que apostam nessa inviabilidade, sonhando as quimeras que acreditam ter poder para realizar, mas não serão eles que darão as tintas na história que está sendo escrita, como os mais perspicazes já concluíram, indo navegar em outros ventos.
O que parece estar se repetindo no Brasil é a percepção de um ciclo que está findando, e que é impositivo fechá-lo em busca de um novo consenso. As ruas cumpriram seu papel, talvez de maneira inédita no País, e concederam um tempo ao poder para se reformar. Como costuma acontecer, a parcela do poder que gerou a crise se recusa a enxergar suas reponsabilidades, passadas e futuras, e, na sua insistência em não mudar, afasta-se da realidade, isolando-se, enquanto outros condôminos perscrutam as formas de sobreviver à crise.
Não há por que e como tentar fazer prognósticos. A História não se repete, quando muito deixa lições e indica algumas continuidades das quais sempre sairão coisas absolutamente inéditas. No mundo real, o que paira no céu sem sustentação cai. Não são anjos os responsáveis por tantos prejuízos ao País e o que pesa sobre os seus atos é o que os levará ao chão. Parece estar se repetindo o que tantas vezes aconteceu na política brasileira: as mudanças que vêm por gravidade.

* Historiador