sábado, 31 de janeiro de 2015
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
BEM-VINDOS
Não é verdade que o presidencialismo petista produziu uma política
errática de alianças externas. Existe nela uma lógica inegável
Os discursos proferidos por ocasião das posses dos novos ministros foram da
sensatez ao delírio, da ponderação à aventura, da prudência à arrogância,
caracterizando bem as contradições, mais que do novo governo, da situação
política no Brasil.
Pontes também se lançaram entre esses extremos que levam ao lugar nenhum,
como a discussão bizantina em torno da existência ou não de latifúndios, tão ao
gosto dos marqueteiros, hábeis em desfocar o essencial, no caso da agricultura,
como de qualquer outro setor produtivo, a geração de riqueza.
A recepção ao novo governo que haveria de ser sombria, dada a sua apertada
vitória eleitoral e os escândalos que o rondam, esvaziou-se assim de qualquer
esperança, sobrando apenas a perspectiva da luta política que já lavra desde as
entranhas do PT até as mais altas esferas da República e para qual não existe
prognóstico, só preocupação.
Da confusão de advertências, patranhas e bravatas que ecoaram na Esplanada
nos primeiros dias de 2015 é possível distinguir dois grupos ministeriais, por
assim dizer, bem nítidos quanto às suas atribuições e missões.
O primeiro é o dos operadores da normalidade, aos quais incumbe fazer o
sistema produtivo do País e a máquina administrativa do Estado funcionarem,
explorando ao máximo as credenciais profissionais e as ligações setoriais dos
seus expoentes.
Com reputações e discursos impecáveis, como aconteceu desde o primeiro
governo Lula, aportaram em Brasília com a atribuição de respaldar a versão
socialdemocrata, capitalista e constitucional dos governos do PT.
O outro grupo é o dos ideólogos do poder, auto investidos da missão de
transformar a sociedade brasileira segundo a sua visão de mundo, para o que
necessitam dos recursos e da institucionalidade que os primeiros lhes
proporcionam.
Explorado ao máximo o modelo ao longo de doze anos, com evidentes
consequências negativas, seria inevitável minguarem os operadores da
normalidade, ao ponto de agora terem de ser recrutados na segunda linha das
elites cooptadas, enquanto se magnificam os ideólogos do poder que expedem os
releases do “projeto vitorioso” que ecoam pelos ministérios, pairando
irrelevantes entre os dois grupos os zumbi-nulidades necessários ao
presidencialismo de coalizão.
Mas depois de muita tinta gasta sobre quem é quem, querendo o quê e para onde
quer nos levar, não resta a menor dúvida que o rumo do País vai sendo dado pelos
ideólogos. A conversinha ruim dos operadores de que eram essenciais para
conterem os ideólogos vai se diluindo na pequeneza cada vez maior dos convocados
a encenarem a farsa que lhes cabe e na audácia dos que realmente exercem o
poder.
Ninguém tem mais dúvida da falência funcional do tal do presidencialismo de
coalizão e nem dos prejuízos que a mistura de radicalismo e canalhice de toda
sorte causaram ao País. O que não parece tão clara é a gravidade dos
alinhamentos internacionais, que vêm sendo impostos ao Brasil em nome de uma
maioria das urnas que não tem a menor ideia do que está sendo feito em seu
nome.
Este foi um objetivo que o PT nunca deixou de perseguir, a construção de uma
nova identidade do Brasil no cenário mundial, algo que, aparentemente, desafiava
a razoabilidade e lógica dos que criticavam essa marcha insensata.
Tanto quanto a construção de um quadro sócio-político interno que pretendem
irreversível pela desinstitucionalização, pela luta de classes e pela
disseminação das ideologias de gênero, minorias e etnias, os ideólogos no poder
se apressam em cristalizar uma posição do Brasil no cenário regional e
internacional que justifique a sua permanência no poder.
Para a análise e crítica das ações ultimamente empreendidas pelo governo
brasileiro no cenário internacional é imprescindível ter em conta que elas
integram um projeto de poder consistente, conduzido por um conjunto de
interesses que é em tudo distinto do consenso em torno de um suposto interesse
nacional.
Para o pensamento que orienta esse projeto, a Aliança do Pacífico não passa
de mais uma iniciativa de contenção contra a China e a Rússia; não há nada de
errado com a desindustrialização do Brasil em proveito da China; a criação de um
banco dos BRIC com sede em Xangai e do correspondente fundo financeiro equivale
aos acordos de Breton Woods; a integração econômica regional não está
naufragando; e o alinhamento antiocidental é prova da maturidade e independência
das políticas externas dos países sul-americanos.
Não são conjecturas, mas sim despautérios disponíveis em documentos
governamentais e partidários ou propalados em declarações públicas.
Não é mais tempo para surpresas e perplexidades. Erra quem vê essas medidas
como erros de uma política mal concebida e executada. Elas são perfeitamente
razoáveis para a consecução de objetivos do projeto que há mais de uma década
vem catalisando na política externa brasileira posicionamentos antiocidentais e
antinacionais num amplo arco, desde o apoio incondicional a radicais islâmicos
estatais e não estatais à aberta hostilidade ao combate às Farc na Colômbia,
passando pela tolerância, e mesmo alinhamento, com ditaduras de distintas
naturezas, particularmente a cubana.
Enquanto não vem a crise com a qual os radicais flertam, quem sabe com o transbordamento das Farc na Amazônia brasileira ou com os desdobramentos da aquisição pela Argentina de caças Sukhoi Su-24 Fencer em troca da comida para a população russa de que necessita o autocrata Putin, vamos perseguindo a miragem dos BRIC.
Enquanto não vem a crise com a qual os radicais flertam, quem sabe com o transbordamento das Farc na Amazônia brasileira ou com os desdobramentos da aquisição pela Argentina de caças Sukhoi Su-24 Fencer em troca da comida para a população russa de que necessita o autocrata Putin, vamos perseguindo a miragem dos BRIC.
Quem leu o documento Dreaming with the BRICs: The Path to 2050, do banco
Goldman Sachs, em face do desafio colossal que a realização da “profecia” dos
BRIC representa para o Brasil em termos de segurança, educação, saúde e
infraestrutura, fica com a desagradável impressão de que não há alternativa à
instauração de um regime autoritário capaz de lidar com as desigualdades
exponenciais do País alçado a uma das maiores economias mundiais, uma versão
menor da China nos trópicos.
Para isso não estamos no caminho errado: basta consolidarmos as
verticalidades e concentrações que já se desenham na economia brasileira. É só
uma questão de tempo para tudo e todos dependerem do Estado.
Não há muitos motivos para se dar as boas-vindas a todos os novos integrantes
do governo que se inaugurou no último dia 1o, tamanha é a incerteza e as
dificuldades que os esperam. Mas daqueles que forem capazes de pensar por si e
de se posicionarem patrioticamente diante dos riscos que rondam o Brasil se
espera muito.
A eles damos as boas-vindas aos nossos piores pesadelos.
NR - Publicado no Jornal Diário do Comércio - 12 Jan 2015 - Blog - OPINIÃO -
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE?
Duas Mães
Era uma manhã cinzenta, chuvosa,
como costumam ser as manhãs, e os dias, nos feriados de finados. O cemitério
estava lotado de gente, capas e guarda-chuvas que, abertos, formavam um,
mórbido, caleidoscópio.
Do lado de fora, os camelôs
estavam em estado de graça: nunca se vendeu tantas flores, velas, santinhos e
outras bugigangas que se compra para honrar a memória dos que se foram. Para
sempre, segundo os céticos e até a ressurreição da carne, para os crentes.
No meio da confusão e da profusão
de flores, velas, cores, capas, guarda-chuvas, duas senhoras, sozinhas, uma
branca e uma negra, ambas já em idade um pouco avançada, arrumavam os túmulos de
algum parente. Elas mesmas limpavam o local, lavavam as lápides, retiravam as
flores secas e trocavam por flores novas, raspavam os restos de velas antigas e
preparavam os castiçais para receber velas novas.
Em um dado momento, se
entreolharam por uns segundos, a senhora negra se aproximou, viu a foto de um
jovem na lápide e perguntou: - Seu filho? Como ele morreu?
- Não sei bem - respondeu a
branca. – Um dia ele saiu de casa dizendo que não aguentava mais ver as coisas
do jeito que estavam, que o povo tinha direito à liberdade, que ia lutar com
todas as forças para tirar os militares do poder e implantar no Brasil um
sistema onde não haveria mais pobre, nem rico e em que todos seriam iguais. Só
sei que, depois desse dia, nunca mais o vi, até o dia em que o corpo dele
apareceu numa calçada, em um subúrbio do Rio, com um tiro no peito. Ele só não
foi enterrado como indigente porque o motorista do rabecão era o nosso vizinho e
o reconheceu. Foi Deus que ajudou. Nunca descobriram que o matou, nem porque
atiraram nele. Não sei o que deu nele. Estava terminando a faculdade e namorava
uma moça de quem eu gosto muito. Eu achava que logo, logo ia ser avó, e tudo
acabou assim.
Já com lágrimas nos olhos,
perguntou: - E você, é seu filho também, como ele morreu?
- É sim – respondeu a negra. –
Conforme me informaram, ele morreu em um tiroteio com terroristas. Ele era
Tenente do Exército, andava preocupado, vivia dizendo que havia uns “rebeldes
sem causa”, um bando de terroristas que estava tentando derrubar o governo,
dizendo que queriam a volta da democracia, mas o que pretendiam mesmo era
implantar um regime comunista no Brasil. E que ele ia fazer o que pudesse pra
ajudar a botar esses agitadores na cadeia. Foi de madrugada, sabe. Um amigo dele
me contou o que houve. Parece que eles entraram em um tal de “aparelho”, mas a
turma reagiu atirando e acertaram ele. Mesmo ferido, ele atirou e parece que
acertou alguém, mas os sujeitos conseguiram fugir. Eu já estava de pé,
preparando o café pra ele, quando aquele jipe verde parou na minha porta e o
Major tocou a campainha do portão. Eu adivinhei logo: meu filho não ia voltar
pra casa nunca mais. Também nunca descobriram quem eram os desgraçados que
estavam no tal aparelho, nem quem atirou nele.
De repente, meio sem saber por
que, entre lágrimas e soluços, as senhoras se abraçaram num gesto de consolo
mútuo e, quase simultaneamente, concluíram: - “o seu filho pode ter matado o
meu”.
Como que adivinhando, uma, o
pensamento da outra, se afastaram e se olharam firmemente, como se pedissem
desculpas pelas atitudes dos filhos.
Em profundo silêncio, recolheram
cada uma suas coisas, saíram lado a lado do cemitério e, no portão, abraçaram-se
mais uma vez, apertaram as mãos e se foram, cada uma carregando a sua dor.
Rio de
Janeiro, 11/12/2014
Cel Jorge
Bastos Costa
A propósito
do relatório da “Comissão Nacional da VERSÃO”
terça-feira, 21 de outubro de 2014
O Dia
O debate da presente eleição presidencial recebeu muitas críticas pela falta de relevância dos temas ou pelo viés ofensivo para o qual descambou, mas, conquanto seja de estranhar que essas preocupações só tenham ocorrido depois que o candidato Aécio Neves respondeu ataques da mesma natureza daqueles que desconstruíram a candidatura de Marina Silva, o que verdadeiramente está em jogo é a percepção do que significa para o Brasil a reeleição da candidata do PT. E, ao contrário das críticas costumeiras que recebe, neste aspecto, a oposição política está cumprindo o seu papel, ao lançar uma poderosa palavra de ordem para o Brasil ir às urnas e defender a escolha que ali fizer. O que na verdade falta é apercebermo-‐nos da seriedade da situação em que vivemos, na qual a oposição vem a público pronunciar, com todas as letras, o que significa o dia da eleição.
Toda ditadura é intrinsicamente corrupta, uma
verdade histórica que contraria a imagem de severidade e austeridade com que
ela procura se justificar. “Hitler ficava feliz por satisfazer o desejo infinito
de seus subalternos pelos adornos materiais do poder e do sucesso, sabedor que a
corrupção em escala maciça assegurava lealdade”(IAN KERSHAW). O ocaso da
União Soviética revelou, mais do que uma abismal ineficiência econômica, a
mais pervertida relação entre poder e privilégios de que se tem notícia,
materializada na nova classe da Nomenklatura, composta pelos gestores do partido
comunista que tudo controlavam e viviam como barões cercados da precariedade e
penúria da população. Também são conhecidos o gosto do ditador
norte-‐coreano Kim Jong-‐ Il (1941-‐2011) por vinhos franceses e a sua
bilionária conta bancária, bem como vão aflorando as notícias sobre a
fortuna e vida luxuosa dos Castro à custas de Cuba. São constatações que
não devem surpreender, pois sem a corrupção a ditadura não tem como
sobreviver.
Toda ditadura é desestabilizadora, outra
verdade extraída do obituário dos totalitarismos do século XX. Ela não pode
se conter num dado estado de coisas, por que, na ausência de competição
democrática, o seu centro de poder se torna isolado e vulnerável, tendo,
portanto, de promover seguidas “revoluções” expressas em medidas excepcionais,
tanto na política interna, quanto na externa. É a fuga permanente para o
futuro, consubstanciada, internamente no arbítrio sobre a sociedade, e
externamente, na promoção ou apoio de agressões e hostilidade ao sistema
internacional que, em sua visão ideológica, contraria seus objetivos. Sem esse
“continuum de radicalização”, ditadura alguma é capaz de se sustentar.
Quem acalenta projetos ditatoriais não foi, não é e não será honesto, e
tampouco benevolente, com tudo e com todos, nem mesmo com seus acólitos, todos
meros peões de seu poder. É simplesmente fatal pensar o
contrário.
Há cerca de vinte anos, durante um simpósio
promovido sobre as tendências políticas do pensamento brasileiro, perguntei a
uma personalidade em ascensão na política nacional do que mais precisava o
Brasil naquele momento: se da liberdade, a “ausência da constrangimento e de
restrição” (MERQUIOR), a liberdade negativa; ou da autonomia, a “fruição
livre de direitos estabelecidos ... associada a um sentido de dignidade”
(Ibid.), a liberdade positiva. A resposta foi inequívoca: era da autonomia, da
liberdade positiva, que mais necessitávamos: a liberdade protegida pela lei e
costumes; a liberdade de participar dos negócios da sociedade; a liberdade de
consciência e de crença; e a liberdade de vivermos como nos apraz. Dávamos os
primeiros passos para a consolidação de nossa democracia, e parecia natural
que, uma vez afastados os resquícios de autoritarismo político, a ênfase
recaísse na fruição consciente e responsável de direitos. O entusiasmo de
alguns painelistas em responder nesse sentido contrastou com o silêncio
constrangedor de outra presença. Naquele momento, não era possível avaliar o
por quê.
Seria desalentador apenas constatar o quanto
regredimos nesses vinte anos, ao deixarmos que a preocupação com o
desenvolvimento de nossa autonomia fosse substituída pela luta em prol da
preservação de nossa liberdade. Só isso basta para reconhecer que algo muito
errado nos aconteceu, sociedade brasileira: permitir que um projeto de poder que
jamais escondeu, por princípios e convicções, em discursos e ações, o seu
vínculo com a ditadura viesse a nos colocar diante de uma escolha impensável.
Mais animador é a certeza de que somos uma
democracia, imperfeita sem dúvida, como tantas, mas ainda capaz de reconhecer o
significado da eleição de 2014, que, pelo seu próprio conceito, remete-‐se
em importância a um futuro que vai além dela mesma, pois preservar a liberdade
é mais prudente do que sofrer para restaurá-‐la. Poucas vezes na história das
ideias na política brasileira um apelo tão poderoso foi lançado ao
eleitorado. É essa ideia que dará nome ao dia da eleição, mesmo depois que
ele tiver passado:
O dia da libertação.
*
Historiador
domingo, 19 de outubro de 2014
sábado, 18 de outubro de 2014
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
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