Continencia

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Caserna

domingo, 28 de setembro de 2014

Sem limites

                                                                                                                                                                                                                                                                         
                                                                                                                                            * Sérgio Paulo Muniz Costa


A publicação em 25 de setembro pelo jornal O Globo do editorial “Limites da Comissão Nacional da Verdade”, enseja reflexões quanto à postura da imprensa em relação a temas sensíveis e polêmicos, como as violações de direitos humanos acontecidas no decorrer da luta revolucionária armada durante os anos 60 e 70 no Brasil. É notório que a grande imprensa não vem dispensando o mesmo espaço e tratamento às opiniões antagônicas sobre essa questão, algo que diz respeito não apenas a militares ou guerrilheiros, mas à sociedade como um todo, e nesse contexto o editorial de O Globo renova as preocupações quanto ao presente e ao futuro de uma imprensa livre no país, aspecto crucial para a sobrevivência da democracia no Brasil.
Um ministro da propaganda disse em certa ocasião a donos de jornais e outros representantes do setor que “a excelente imprensa nacional precisava enxergar uma situação ideal no fato de ela ser na mão do governo uma espécie de piano que o governo pode tocar”1. Como no Brasil de hoje ninguém ousa desmentir a existência de um “Ministério da Propaganda“ espraiado nos meandros da República e muito bem instalado no Palácio do Planalto, é lícito perguntar se o governo está ou não tocando o piano da imprensa. Aparentando uma postura equânime, no estilo “uma no cravo e outra na ferradura“, o editorial de o Globo omite, erra e distorce na forma e no conteúdo, inapropriada e desequilibrado respectivamente, considerando-­‐se que se trata de um jornal dessa tradição e importância.
Omite, ao não apontar que é o próprio governo que intenta alterar a Lei da Anistia, o mesmo governo que constitui de forma sectária em sua Casa Civil uma comissão ideológica; que não desautoriza qualquer das declarações de membros dessa comissão naquele sentido e que consente a alteração do escopo de seus trabalhos à revelia da lei aprovada pelo Congresso Nacional, o qual, mais uma vez, aceita ser enganado e desautorizado.
Erra, grosseiramente, ao atribuir a origem da questão a “conflitos entre o poder político e as Forças Armadas de quatro, cinco décadas atrás” e a propor “identificar responsáveis” fora da esfera judicial. É extremamente preocupante assistir um jornal da importância de O Globo assumir em matéria editorial erros tão crassos. O primeiro, por desconsiderar fatos para acolher interpretações radicais. Ora, se está em julgamento o Movimento de 31 de Março de 1964, cabe lembrar aos historiadores que o Globo consultou (dos quais não necessitaria se compulsasse seus próprios arquivos) que ele se originou de um conflito no poder político e que foi esse poder que deu posse a um presidente eleito pelo Congresso. Se está em julgamento a ação repressiva do Estado contra a guerrilha, cabe lembrar que as forças armadas e polícias defendiam o poder político que as organizações radicais de esquerda queriam derrubar. No segundo caso, quanto à responsabilização, como os juristas de fancaria pretendem “identificar responsáveis sem fins judiciais, até por um dever humanitário do Estado para com as famílias”? Com as inquirições unilaterais, escrachos e depredações que alegremente destroem reputações e carreiras sem qualquer compromisso com a Justiça e o Direito? Que famílias? De algumas ou de todas atingidas indiscriminadamente pela violência?
Distorce, ao lembrar, parcialmente as vítimas militares do terrorismo de esquerda, quando deveriam ser identificadas, e muito bem lembradas, as não poucas vítimas civis de uma violência que está longe de ser condenada no Brasil. Distorce o sentido da palavra “atuar”, que no léxico dos radicais homiziados na estrutura governamental significa punir e calar quem quer que se manifeste contra o arbítrio e possa ser menosprezado pelos príncipes da verdade como um não cidadão, incapaz de exercer seu direito de opinião. Quanto a esse aspecto, repito aqui um comentário que recebi quando da divulgação do malfadado editorial: "Quando os radicais falam e escrevem, o Globo publica e bate palmas. Quando um general da reserva fala, é “arroubo” que deve ser contido pelos comandantes para se manter a serenidade". Assim, na falta de argumentos, nega-­‐se espaço à opinião contrária e volta-­‐se à velha prática da ameaça, pouco importa que ela seja absolutamente ilegal.
Para enorme azar de O Globo, na mesma data em que publicou seu desastrado editorial, repercutiram as desastradas declarações da presidente da República na oportunidade da Abertura da Assembleia-­‐Geral da ONU, com as quais ela condenou as medidas da comunidade internacional contra o novo surto de terrorismo islâmico no Oriente Médio. Confirmou-­‐se aquilo que se esconde há algum tempo no país: um governo controlado por pessoas que nunca se sentiram obrigadas a pedir desculpas pelos atos de terrorismo que cometeram em seu país será sempre incapaz de se posicionar com clareza em relação ao terrorismo internacional. Não só pela surpreendente falta de legislação pertinente, mas agora também por meio de declarações inoportunas e mal direcionadas de sua presidente em tribunas internacionais, o Brasil vai se posicionando erroneamente no cenário mundial. Oxalá, isso não traga consequências graves para os brasileiros.
A questão é, portanto, outra: o Estado somos nós, a sociedade politicamente organizada, sobre a qual recairão as consequências dos erros cometidos por aqueles transitoriamente incumbidos de nos representar e governar. Tratemos pois de enfrentar os erros de nossa sociedade e não os facilmente atribuíveis ao Estado, essa entidade misteriosa, com fundos infindáveis e culpas infinitas, em cujo remanso se expiam tantos fracassos e omissões. Tratemos de enfrentar o erro da violência política do marxismo que derrotado nas suas expressões guerrilheiras urbana e rural há mais de quarenta anos está aí renascido e travestido como movimentos anárquicos que ameaçam a paz social. Tratemos de enfrentar a fraqueza de uma imprensa dita forte que se dobra aos interesses cartoriais, desinformando e confundindo a sociedade como serviçal volúvel do momento político. Tratemos de enfrentar a soberba dos poderosos que se julgam acima do bem e do mal, senhores do monopólio da verdade com que pretendem ignorar e fazer ignorar as discordâncias que devem existir em qualquer sociedade democrática. Foram fraquezas como essas que, não enfrentadas, acumularam-­‐se até o ponto da ruptura em outras épocas de nossa História, custando caro ao País e à sua evolução social e política.
Não se reconhece aqui neste texto qualquer inferioridade cedida por se dar resposta a mais uma iniciativa despropositada que ocupou as manchetes durante dois dias e, particularmente, a um editorial que, se pretendia corrigir algum excesso, acabou por cometer outros piores. Resgatam-­‐se, ou pelo menos tenta-­‐se resgatar, os saudáveis hábitos do debate, dissenso e apreciação de perspectivas distintas. De antemão, repudia-­‐se qualquer tentativa de classificar este texto de cerceador ou constrangedor da imprensa: quem o assim enxergar está tentando fugir ao debate, para o qual o autor deste texto permanece à disposição.
Estranha-­-se sim que em momento tão sensível, às vésperas de eleições cruciais para o País, tenha brotado de um gabinete ministerial, justamente o da Defesa, em evidente sincronia com a Comissão Nacional da Verdade, uma notícia tão perturbadora, carimbada pelo governo, divulgada e reiterada com tanto destaque. Instalou-­‐se uma crise, sem dúvida. É o ressurgir do Leviatã, capaz de impor uma tréplica a uma réplica que não houve, de ameaçar sem respaldo na Lei e de impor a verdade única.
Não se trata de limites de uma comissão, mas da falta de limites do Estado.
 
* Historiador 

1 LONGERISH, Peter. Joseph Goebbels: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2014. p. 214.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

ANÁLISE FRIA

O ESTADO DE S. PAULO
  
O Brasil é um país fantástico.Nulidades são transformadas em gênios da noite para o dia. Uma eficaz máquina de propaganda faz milagres. Temos ao longo da nossa História diversos exemplos.O mais recente é Dilma Rousseff.
Surgiu no mundo político brasileiro há uma década. Durante o regime militar militou em grupos de luta armada, mas não se destacou entre as lideranças.Fez política no Rio Grande do Sul exercendo funções pouco expressivas. Tentou fazer pós graduação em Economia na Unicamp, mas acabou fracassando,não conseguiu sequer fazer um simples exame de qualificação de mestrado. Mesmo assim,durante anos foi apresentada como "doutora" em Economia.Quis-se aventurar no mundo de negócios, mas também malogrou. Abriu em Porto Alegre uma lojinha de mercadorias populares, conhecidas como "de 1,99". Não deu certo. Teve logo de fechar as portas.
Caminharia para a obscuridade se vivesse num país politicamente sério. Porém, para sorte dela, nasceu no Brasil. E depois de tantos fracassos acabou premiada:virou ministra de Minas e Energia.Lula disse que ficou impressionado porque numa reunião ela compareceu munida de um laptop.Ainda mais: apresentou um enorme volume de dados que, apesar de incompreensíveis, impressionaram favoravelmente o presidente eleito.
Foi nesse cenário, digno de O Homem que Sabia Javanês, que Dilma passou pouco mais de dois anos no Ministério de Minas e Energia. Deixou como marca um absoluto vazio.Nada fez digno de registro.Mas novamente foi promovida. Chegou à chefia da Casa Civil após a queda de José Dirceu, abatido pelo escândalo do mensalão. Cabe novamente a pergunta: por quê? Para o projeto continuísta do PT a figura anódina de Dilma Rousseff caiu como uma luva. Mesmo não deixando em um quinquênio uma marca administrativa um projeto, uma ideia, foi alçada a sucessora de Lula.
Nesse momento, quando foi definida como a futura ocupante da cadeira presidencial, é que foi desenhado o figurino de gestora eficiente, de profunda conhecedora de economia e do Brasil, de uma técnica exemplar,durona,implacável e desinteressada de política. Como deveria ser uma presidente a primeira no imaginário popular.
Deve ser reconhecido que os petistas são eficientes. A tarefa foi dura,muito dura.Dilma passou por uma cirurgia plástica, considerada essencial para, como disseram à época, dar um ar mais sereno e simpático à então candidata. Foi transformada em "mãe do PAC". Acompanhou Lula por todo o País. Para ela e só para ela a campanha eleitoral começou em 2008. Cada ato do governo foi motivo para um evento público, sempre transformado em comício e com ampla cobertura da imprensa. Seu criador foi apresentando homeopaticamente as qualidades da criatura ao eleitorado.Mas a enorme dificuldade de comunicação de Dilma acabou obrigando o criador a ser o seu tradutor, falando em nome dela e violando abertamente a legislação eleitoral.
Com base numa ampla aliança eleitoral e no uso descarado da máquina governamental, venceu a eleição. Foi recebida com enorme boa vontade pela imprensa. A fábula da gestora eficiente, da administradora cuidadosa e da chefe implacável durante meses foi sendo repetida. Seu figurino recebeu o reforço, mais que necessário, de combatente da corrupção.Também, pudera: não há na História republicana nenhum caso de um presidente que em dois anos de mandato tenha sido obrigado a demitir tantos ministros acusados de atos lesivos ao interesse público.
Com o esgotamento do modelo de desenvolvimento criado no final do século 20 e um quadro econômico internacional extremamente complexo,a presidente teve de começar a viver no mundo real. E aí a figuração começou a mostrar suas fraquezas. O crescimento do produto interno bruto (PIB) de 7,5% de 2010, que foi um componente importante para a vitória eleitoral, logo não passou de uma recordação. Independentemente da ilusão do índice (em 2009 o crescimento foi negativo: -0,7%),apesar de todos os artifícios utilizados,em 2011 o crescimento foi de apenas 2,7%. Mas para piorar, tudo indica que em 2012 não tenha passado de 1%. Foi o pior biênio dos tempos contemporâneos, só ficando à frente,na América do Sul, do Paraguai. A desindustrialização aprofundou-se de tal forma que em 2012 o setor cresceu negativamente: -2,1%. O saldo da balança comercial caiu 35% em relação à 2011, o pior desempenho dos últimos dez anos,e em janeiro deste ano teve o maior saldo negativo em 24 anos. A inflação dá claros sinais de que está fugindo do controle.E a dívida pública federal disparou: chegou a R$ 2 trilhões.
As promessas eleitorais de 2010 nunca se materializaram. Os milhares de creches desmancharam-se no ar. O programa habitacional ficou notabilizado por acusações de corrupção. As obras de infraestrutura estão atrasadas e superfaturadas. Os bancos e empresas estatais transformaram-se em meros instrumentos políticos a Petrobras é a mais afetada pelo desvario dilmista.
Não há contabilidade criativa suficiente para esconder o óbvio: o governo Dilma Rousseff é um fracasso, uma incompetência total. E pusilânime: abre o baú e recoloca velhas propostas como novos instrumentos de política econômica. É uma confissão de que não consegue pensar com originalidade. Nesse ritmo, logo veremos o ministro Guido Mantega anunciar uma grande novidade para combater o aumento dos preços dos alimentos: a criação da Sunab.
Ah, o Brasil ainda vai cumprir seu ideal: ser uma grande Bruzundanga. Lá, na cruel ironia de Lima Barreto, a Constituição estabelecia que o presidente "devia unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma inteligência; que não tivesse vontade própria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total".

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A garantia da democracia

                                     
• Sérgio Paulo Muniz Costa

Foi com a Lei da Anistia que o Estado brasileiro reconheceu mortes e torturas durante o regime militar e não com comissões governamentais focadas em interesses bem mais estreitos do que a consolidação da democracia. Hoje, passados vinte anos, é possível constatar o verdadeiro objetivo de muitos marxistas arrependidos e renitentes que assumiram o poder desde meados dos anos 90: a sua redenção perante a História. Irresponsáveis e egoístas, ignoram na sua soberba de poder que o atual estágio de nossa evolução democrática tem um ponto de partida, a inauguração do atual regime em 1985, a única República que não se instalou no Brasil por um golpe de estado, historicamente ancorada, gostem ou não, na Lei da Anistia de 1979.
Sem refletir sobre o significado e consequências de sua atitude, esquecem lições como as deixadas nas palavras de um dos grandes pensadores do século XX, Norberto Bobbio: “uma sociedade democrática, pode suportar a violência criminal: embora dentro de certos limites [...]. Não pode suportar a violência política”. É essa violência politica que o governo brasileiro desconsidera deliberadamente no curso ilegal que promove nos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, ao omitir a violência doutrinária que o marxismo instilou no pensamento brasileiro desde os anos 50 e a violência real que o terrorismo causou nos anos 60 e 70, não só contra pessoas constitucionalmente incumbidas da manutenção da Lei e da Ordem, mas contra cidadãos comuns, alheios ou avessos aos projetos revolucionários de tomada de poder pela força.
Obter ilegalmente armas letais; conspirar contra a ordem pública; praticar crimes contra a segurança pública; sequestrar, assassinar e mutilar pessoas; aterrorizar a sociedade mediante atentados causadores de mortes, ferimentos e destruição e, principalmente, pretender fazer da população civil o alvo de represálias do governo, conforme preconizou o teórico da guerrilha urbana Carlos Mariguella, são crimes de violência política, certamente mais graves do que a violência criminal que a sociedade deve enfrentar. Na verdade, a tentativa deliberada de se fazerem apagar tais crimes mediante a criminalização generalizada dos atos de seus antagonistas, passando por cima do esquecimento que beneficiou ambos, deveria se constituir em ilícito contra a sociedade, como aconteceu há pouco tempo na Espanha.

Apagar os próprios crimes pela criminalização discricionária de outrem é, pelo arbítrio, agravar a incapacidade de uma sociedade se relacionar com as violações das normas, a anomia, origem desse risco bastante real à democracia apontado por Ralf Dahrendorf, que é a tirania, em qualquer de suas formas. Afinal, a democracia, mais do que convergência em normas nas quais fruímos a convivência pacífica, é a observância do processo, de cujo desrespeito Bobbio extraiu a advertência que deve nos assombrar permanentemente: “se é que no futuro ainda existirão governos democráticos, algo que não podemos saber com certeza”.
Ao contrário do que se toma hoje do noticiário nacional, o respeito pela letra e espírito da Anistia diz muito pouco quanto aos seus efeitos imediatos, materializados na responsabilização de uns e na absolvição de outros à revelia da Lei. Por inúmeras razões que deveriam ser conhecidas e discutidas pela sociedade brasileira, ela diz respeito a todos nós e ao futuro de nossa democracia.

* Historiador  

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A caminho do bicentenário da Independência

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Colosso continental que emergiu  independente e unificado há 190 anos, o Brasil é caso único na história política das nações,  especificidade explicada pelas origens da sua formação e dinâmica da sua evolução. Nas origens, pela coincidência do adventício miscigenador com o autóctone de um tronco linguístico predominante na geografia não dissociadora. Na dinâmica, por um processo  de fronteira movido a adaptação e aculturamento. Assim, o Brasil seria um país mais antigo do que estamos acostumados a pensar, com uma cultura definitivamente mestiça, espontânea e sincrética.
 
Além de trazer nova vida à colônia, a transferência para o Brasil da sede do Império português em 1808 lhe deu uma base de poder inédita, a mais próxima da profecia do Quinto Império. 
 
Só mesmo a cegueira do nacionalismo, no caso o que dominou as Cortes portuguesas originadas da Revolução do Porto (1820) para desconhecer a robustez do desenvolvimento histórico brasileiro. Em menos de dois anos, entre a adesão de D. João 6º ao sistema constitucional (fevereiro de  1821) e o Grito no Ipiranga (7 de setembro de 1822), o Brasil assumiu seu destino, encaminhado pelo patriotismo de José Bonifácio, pela sensibilidade da Princesa Leopoldina e pela coragem de D. Pedro.
 
São essas as raízes que condicionam a evolução política do Brasil desde a Independência e dão solidez à sua nacionalidade, as mesmas que, no entanto, colocam formidáveis desafios ao seu desenvolvimento.  Sim, por que o Brasil se fez grande e autônomo sem ser protagonista dos grandes acontecimentos que marcaram o Ocidente desde o século 18, parecendo-lhe natural que assim fosse.  Afastado dos grandes fluxos de capital, trabalho e bens que cruzaram o Atlântico Norte, o Brasil se voltou para si próprio, direcionando as energias de seus sonhos e projetos para a integração e articulação de seu vasto interior.
 
Em meados do século 20 ficou claro que nos faltava conhecimento e capital – humano e financeiro – para a empreitada e foi-se buscar no exterior os seus sucedâneos. Dos muitos esforços dispendidos, apenas um, depois de 150 anos, foi capaz de alterar profundamente a paisagem do interior do país, integrar vastas porções de seu território e gerar a riqueza muitas vezes multiplicada que foi primordial para a transformação do Brasil numa potência econômica: a expansão da agricultura. 
 
No momento em que se esgotava o modelo de substituição das importações e com ele o nosso sonho da industrialização, frustrado pelas modificações estruturais da Revolução Tecnológica e da Informação, (a terceira que perdíamos) faltou-nos, sem dúvida, constatar que a fortuna  e o revés que experimentávamos eram faces da mesma moeda: o conhecimento.
 
Hoje, falta-nos muito mais.  Reconhecida a diferença entre crescimento e desenvolvimento econômico, falta assumir que a engenharia social centrada nas transferências de renda é acessória na modificação do quadro de desigualdade social que vige no País.  Numa conjuntura mundial na qual o PIB se mostra menos relevante para aferir o grau de desenvolvimento das sociedades – político, econômico, social e humano– cabe perguntar se, quando e como vamos enfrentar a questão que causa consternação às melhores mesas de seminários e congressos no país: a transformação do Brasil numa sociedade baseada no conhecimento. Se uma nação é o resultado do que ela entende como sua História, ela será o que for ensinado pelas lições que desta souber extrair. Dez anos é tempo suficiente  para se preparar mais do que uma festa.
 
 
Sérgio Paulo Muniz Costa é historiador

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

UM VESTIDO NOVO PARA UM ÓDIO ANTIGO


Pilar Rahola
Segunda-feira à noite, em Barcelona. No restaurante, uma centena de advogados e juizes. Eles se encontraram para ouvir minhas opiniões sobre o conflito do Oriente Médio. Eles sabem que eu sou um barco heterodoxo no naufrágio do pensamento único que reina em meu país, sobre Israel. Eles querem me escutar. Alguém razoável como eu, dizem, por que se arrisca a perder a credibilidade defendendo os maus, os culpados? Eu lhes falo que a verdade é um espelho quebrado e que todos nós temos algum fragmento. E eu
provoco sua reação: "todos vocês se sentem especialistas em política internacional, quando se fala de Israel, mas na realidade não sabem nada. Será que se atreveriam a falar do conflito de Ruanda, da Caxemira, da Chechenia?"
Não. São juristas, sua área de atuação não é a geopolítica. Mas com Israel se atrevem a dar opiniões. Todo mundo se atreve. Por quê? Porque Israel está sob a lupa midiática permanente e sua imagem distorcida contamina os cérebros do mundo. E, porque faz parte da coisa politicamente correta, porque parece solidariedade humana, porque é grátis falar contra Israel. E, deste modo, pessoas cultas, quando lêem sobre Israel, estão dispostas a
acreditar que os judeus têm seis braços;, como na Idade Média, elas acreditam em todo tipo de barbaridades. Sobre os judeus do passado e os israelenses de hoje, vale tudo.
A primeira pergunta é, portanto, por que tanta gente inteligente, quando fala sobre Israel, se torna idiota. O problema que temos, nós que não demonizamos Israel, é que não existe debate sobre o conflito, existe rótulo; não se trocam ideias, adere-se a slogans; não desfrutamos de informações sérias, nós sofremos de jornalismo tipo hambúrguer, fast food,
cheio de preconceitos, propaganda e simplismo. O pensamento intelectual e o jornalismo internacional renunciaram a Israel. Não existem. É por isso que, quando se tenta ir mais além do pensamento único, passa-se a ser o suspeito, o não solidário e o reacionário, e o
imediatamente segregado. Por quê? Eu tento responder a esta pergunta há anos: por quê?
Por que de todos os conflitos do mundo, só este interessa? Por que se criminaliza um pequeno país, que luta por sua sobrevivência? Por que triunfa a mentira e a manipulação informativa, com tanta facilidade? Por que tudo é reduzido a uma simples massa de imperialistas assassinos? Por que as razões de Israel nunca existem? Por que as culpas palestinas nunca existem? Por que Arafat é um herói e Sharon um monstro? Em definitivo, por que, sendo o único país do mundo ameaçado com a destruição é o único que ninguém considera como vítima?
Eu não acredito que exista uma única resposta a estas perguntas. Da mesma forma que é impossível explicar a maldade histórica do antissemitismo completamente, também não é possível explicar a imbecilidade atual do preconceito anti-Israel. Ambos bebem das fontes da intolerância, da mentira e do preconceito. Se, além disso, nós aceitarmos que ser anti-Israel é a nova forma de ser antissemita, concluímos que mudaram as circunstâncias, mas se mantiveram intactos os mitos mais profundos, tanto do antissemitismo
cristão medieval, como do antissemitismo político moderno. E esses mitos desembocam no que se fala sobre Israel. Por exemplo, o judeu medieval que matava as crianças cristãs para beber seu sangue, se conecta diretamente com o judeu israelense que mata as crianças palestinas para ficar com suas terras. Sempre são crianças inocentes e judeus de intenções obscuras.
Por exemplo, a ideia de que os banqueiros judeus queriam dominar o mundo através dos bancos europeus, de acordo com o mito dos Protocolos (dos Sábios de Sião), conecta-se diretamente com a ideia de que os judeus de Wall Street dominam o mundo através da Casa Branca. O domínio da imprensa, o domínio das finanças, a conspiração universal, tudo aquilo que se configurou no ódio histórico aos judeus, desemboca hoje no ódio aos
israelenses. No subconsciente, portanto, fala o DNA antissemita ocidental, que cria um eficaz caldo de cultura. Mas, o que fala o consciente? Por que hoje surge com tanta virulência uma intolerância renovada, agora centrada, não no povo judeu, mas no estado judeu? Do meu ponto de vista, há motivos históricos e geopolíticos, entre eles o sangrento papel soviético durante décadas, os interesses árabes, o antiamericanismo europeu, a dependência energética do Ocidente e o crescente fenômeno islâmico.
Mas também surge de um conjunto de derrotas que nós sofremos como sociedades livres e que desemboca em um forte relativismo ético. Derrota moral da esquerda. Durante décadas, a esquerda ergueu a bandeira da liberdade, onde houvesse injustiça, e foi a depositária das esperanças utópicas da sociedade. Foi a grande construtora do futuro. Apesar da maldade assassina do stalinismo ter afundado essas utopias e ter deixado a
esquerda como o rei que estava nu, despojado de trajes, ela conservou intacta sua auréola  de lutadora, e ainda dita as regras do que é bom e ruim no mundo. Até mesmo aqueles que nunca votariam em posições de esquerda, concedem um grande prestígio aos intelectuais de esquerda e permitem que sejam eles os que monopolizam o conceito de solidariedade. Como fizeram sempre. Deste modo, os que lutavam contra Pinochet, eram os lutadores pela
liberdade, mas as vítimas de Castro são expulsas do paraíso dos heróis e transformadas em agentes da CIA, ou em fascistas disfarçados. Da mesma forma que é impossível explicar a maldade histórica do antissemitismo completamente, também não é possível explicar a imbecilidade atual do preconceito anti-Israel. Ambos bebem das fontes da intolerância, da mentira e do preconceito.
Eu me lembro, perfeitamente, como, quando era jovem, na Universidade combativa da Espanha de Franco, ler Solzhenitsyn era um horror! E deste modo, o homem que começou a gritar contra o buraco negro do Gulag stalinista, não pôde ser lido pelos lutadores antifranquistas, porque não existiam as ditaduras de esquerda, nem as vítimas que as combatiam.
Essa traição histórica da liberdade se reproduz no momento atual, com precisão matemática. Também hoje, como ontem, essa esquerda perdoa ideologias totalitárias, se apaixona por ditadores e, em sua ofensiva contra Israel, ignora a destruição de direitos fundamentais. Odeia os rabinos, mas se apaixona pelos imãs; grita contra o Tzahal (Exército
israelense), mas aplaude os terroristas do Hamas; chora pelas vítimas palestinas, mas rejeita as vítimas judias; e, quando se comove pelas crianças palestinas, só o faz se puder acusar os israelenses. Nunca denunciará a cultura do ódio, ou sua preparação para a morte, ou a escravidão que suas mães sofrem. E enquanto iça a bandeira da Palestina, queima a bandeira de Israel.
Um ano atrás, eu fiz as seguintes perguntas no Congresso do AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel) em Washington: "Que profundas patologias alijam a esquerda de seu compromisso moral? Por que nós não vemos manifestações em Paris, ou em Barcelona, contra as ditaduras islâmicas? Por que não há manifestações contra a escravidão de milhões de mulheres muçulmanas? Por que eles não se manifestam contra o uso de crianças-bomba, nos conflitos onde o Islã está envolvido? Por que a esquerda só está obcecada em lutar contra duas das democracias mais sólidas do planeta, e as que sofreram os ataques mais sangrentos, os Estados Unidos e Israel?"
Porque a esquerda, que sonhou utopias, parou de sonhar, quebrada no muro de Berlim do seu próprio fracasso. Já não tem ideias, e sim slogans. Já não defende direitos, mas preconceitos. E o preconceito maior de todos é o que tem contra Israel. Eu acuso, portanto, de forma clara: a principal responsabilidade pelo novo ódio antissemita, disfarçada de posições anti-Israel, provém desses que deveriam defender a liberdade, a solidariedade e o progresso. Longe disto, eles defendem os déspotas, esquecem suas vítimas e permanecem calados perante as ideologias medievais que querem destruir a civilização. A traição da esquerda é uma autêntica traição à modernidade.
Derrota do jornalismo. Temos um mundo mais informado do que nunca, mas nós não temos um mundo melhor informado. Pelo contrário, os caminhos da informação mundial nos conectam com qualquer ponto do planeta, mas eles não nos conectam nem com a verdade, nem com os fatos. Os jornalistas atuais não precisam de mapas, porque têm o Google Earth, eles não precisam saber história, porque têm a Wikipedia. Os jornalistas históricos que conheciam as raízes de um conflito, ainda existem, mas são espécies em extinção,
devorados por este jornalismo tipo hambúrguer, que oferece fast food de notícias, para leitores que querem fast food de informação.
Israel é o lugar mais vigiado do mundo e, ainda assim, o lugar menos compreendido do mundo. Claro que, também influencia a pressão dos grandes lobbys dos petrodólares, cuja influência no jornalismo é sutil, mas profunda. Qualquer mídia sabe que se falar contra Israel não terá problemas. Mas, o que acontecerá se criticar um país islâmico? Sem dúvida, então, sua vida ficará complicada. Não nos confundamos. Parte da imprensa, que escreve contra Israel, se veria refletida na frase afiada de Goethe: "Ninguém é mais escravo do que aquele que se acha livre, sem sê-lo". Ou também em outra, mais cínica de Mark Twain: "Conheça primeiro os fatos e logo os distorça quanto quiser" .
Derrota do pensamento crítico. A tudo isto, é necessário somar o relativismo ético, que define o momento atual, e que é baseado, não na negação dos valores da civilização, mas na sua banalização. O que é a modernidade? Pessoalmente a explico com este pequeno relato: se eu me perdesse em uma ilha deserta, e quisesse voltar a fundar uma sociedade democrática, só necessitaria de três livros: as Tábuas da Lei, que estabeleceram o primeiro
código de comportamento da modernidade. "O não matarás, não roubarás", fundou a civilização moderna. O código penal romano. E a Declaração dos Direitos Humanos. E com estes três textos, começaríamos novamente. Estes princípios que nos endossam como sociedade, são relativizados, até mesmo por aqueles que dizem defendê-los. "Não matarás", depende de quem seja o objeto, pensam aqueles que, por exemplo, em Barcelona, se manifestam aos gritos a favor do Hamas.
"Vivam os direitos humanos" , depende de a quem se aplica, e por isso milhões de mulheres escravas não preocupam. "Não mentirás" , depende se a informação for uma arma de guerra a favor de uma causa. A massa crítica social se afinou e, ao mesmo tempo, o dogmatismo ideológico engordou. Nesta dupla mudança de direção, os fortes valores da modernidade foram substituídos por um pensamento fraco, vulnerável à manipulação e ao
maniqueísmo.
Derrota da ONU. E com ela, uma firme derrota dos organismos internacionais, que deveriam cuidar dos direitos humanos, e que se tornaram bonecos destroçados nas mãos de déspotas. A ONU só serve para que islamofascistas, como Ahmadinejad, ou demagogos perigosos, como Hugo Chávez, tenham um palco planetário de onde cuspir seu ódio. E, claro, para atacar Israel sistematicamente. A ONU, também, vive melhor contra Israel.
Finalmente, derrota do Islã. O Islã das luzes sofre hoje o ataque violento de um vírus totalitário, que tenta frear seu desenvolvimento ético. Este vírus usa o nome de Deus para perpetrar os horrores mais inimagináveis: apedrejar mulheres, escravizá-las, usar grávidas e jovens com atraso mental como bombas humanas, educar para o ódio e declarar guerra à liberdade. Não esqueçamos, por exemplo, que nos matam com celulares conectados, via
satélite, com a Idade Média. Se o stalinismo destruiu a esquerda, e o nazismo destruiu a Europa, o fundamentalismo islâmico está destruindo o Islã. E também tem, como as outras ideologias totalitárias, um DNA antissemita. Talvez o antissemitismo islâmico seja o fenômeno intolerante mais sério da atualidade, e não em vão afeta mais de 1,3 bilhões de pessoas educadas, maciçamente, no ódio ao judeu.
Na encruzilhada destas derrotas, se encontra Israel. Órfão de uma esquerda razoável, órfão de um jornalismo sério e de uma ONU digna, e órfão de um Islã tolerante, o Estado de Israel sofre com o paradigma violento do século XI: a falta de compromisso sólido com os valores da liberdade. Nada é estranho. A cultura judaica encarna, como nenhuma outra, a metáfora de um conceito de civilização que hoje sofre ataques por todos os flancos. Vocês são o termômetro da saúde do mundo. Sempre que o mundo teve febre totalitária, vocês sofreram. Na Idade Média, no fascismo europeu, no fundamentalismo islâmico. Sempre, o primeiro inimigo do e da confusão social, Israel encarna, na própria carne, o judeu de sempre.
Um pária de nação entre as nações, para um povo pária entre os povos. É por isso que o antissemitismo do século XXI foi vestido com o disfarce efetivo da crítica anti-Israel. Toda crítica contra Israel é antissemita? Não. Mas, todo o antissemitismo atual transformou- se no preconceito e na demonização contra o Estado Judeu. Um vestido novo para um ódio antigo.
Benjamim Franklin disse: "Onde mora a liberdade, lá é a minha pátria". E Albert Einstein acrescentou: "A vida é muito perigosa. Não pelas pessoas que fazem o mal, mas por aquelas que ficam sentadas vendo isso acontecer" .
Este é o duplo compromisso aqui e hoje: nunca se sentar vendo o mal passar e defender sempre as pátrias da liberdade.
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*Pilar Rahola I. Martínez* Nasceu em 21/10/1958 é jornalista e escritora catalã, com formação política e MP. Estudou Espanhol e Filosofia Catalã na Universidade de Barcelona. Possui vários livros e artigos publicados,
palestrante internacional requisitada pela mídia e universidades, é colunista do La Vanguardia, na Espanha; La Nacion, na Argentina e do Diário da América, nos Estados Unidos.
De 1987 a 1990 Rahola cobriu a Guerra na Etiópia, Guerra dos Balcãs, Guerra do Golfo e a Queda do Muro de Berlim como diretora da publicação Pòrtic. Suas áreas de atuação incluem Direito das Mulheres, Direito Humano Internacional, e Defesa dos Animais. Nos últimos anos tem exposto seu ponto de vista sobre Israel e o Sionismo.
Entre diversos prêmios recebidos: Doutor Causa Honoris na Universidade de Artes e Ciência da Comunicação, em Santiago do Chile (2004), pela sua luta em favor dos direitos humanos; Prêmio Javer Shalom, pela comunidade judaica chilena pela sua luta contra o antisemitismo; Cicla Price (2005), pelo mesmo motivo; Membro de Honra da Universidade de Tel Aviv (2006); Golden Menora entregue pela Bnai Brith francesa (2006); Laureada com o priemio Scopus pela Universidade Hebraica de Jerusalém (2007); participou como convidada de honra em diversas ocasiões, entre elas no AIPAC de Conferência Política (2008); em 2009 recebeu prêmio da Federação das Comunidades Judias da Espanha, Senador Angel Pulido e Prêmio Mídia de Massa pelo Comitê Judaico Americano pela luta pelos Direitos Humanos; A Liga Anti Difamação lhe concedeu o prêmio Daniel Pearl "pela sua dedicação e comprometimento a um jornalismo honesto e responsável baseado em um código de ética e por falar honestamente ao público"; recebeu o prêmio Morris Abram entregue pela UN pela sua defesa aos Direitos Humanos, Genebra, 2011, entre outros.